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- Se te perguntar sobre arte, me dirá tudo escrito sobre o tema. Michelangelo… sabe muito sobre ele: Sua obra, aspirações políticas, ele e o papa, tendências sexuais, tudo… Mas não pode falar do cheiro da Capela Sistina… Nunca esteve lá, nem olhou aquele teto lindo. Nunca o viu…

[…]

- Se perguntar sobre mulheres, me dará uma lista das favoritas. Já deve ter transado algumas vezes…
…Mas não sabe o que é acordar ao lado de uma mulher e se sentir realmente feliz.

- É um garoto sofrido. Se perguntar sobre a guerra, vai me citar Shakespeare: “Outra vez ao mar, amigos…”.

Mas não conhece a guerra. Nunca teve a cabeça do seu melhor amigo no colo… E viu seu último suspiro, pedindo ajuda.

- Se perguntar sobre o amor, citará um soneto… Mas nunca olhou uma mulher e se sentiu vulnerável. Alguém que o entendesse com um olhar… Como se houvesse um anjo na Terra só pra você, para salvá-lo do inferno. E sem saber como ser o anjo dela. Como amá-la e apoiá-la pra sempre, em tudo.

-/-

- Você é órfão, não é? 

- […]

- Acha que sei como sofreu, como se sente, quem você é só porque li “Oliver Twist”? Você se resume a isso?

(Monólogo - Gênio Indomável. Completo)

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O que será que me dá que fico nessa calma como se eu fosse a própria noite?O mundo gira lá fora preso em intermináveis desvarios, e eu aqui, livre em meus pensamentos que conversam entre si. Essa serenidade que me afaga a pele e acalenta minha alma, me dá um ar pueril que só tem valor para mim, que o vivo agora - e já antes vivi. O sossego da noite me espera, e eu chego, - chego porque tanto o quis que o conquistei -, eu o esperei, não ele a mim. A grande mudez que já não me abala apenas vem embalar minha liberdade que só alcanço fora do peito, mas dentro dos olhos.  Talvez o dia nasça nublado, e é bom que seja assim: a imensidão do céu cinza e o doce e puro desejo de silêncio. Se música tocar, que seja de chuva acompanhada de timbres de piano. Se o Sol resplandecer, esperarei calmamente seu grande ocultamento no horizonte… O momento que reluz em meus olhos e se transfere para meu espírito, faz-me ansiar um lugar tão alto e longe que não pudessem me distinguir: se sou alma vivente ou se faço parte do ocaso.

O que será que me dá que fico nessa calma como se eu fosse a própria noite?
O mundo gira lá fora preso em intermináveis desvarios, e eu aqui, livre em meus pensamentos que conversam entre si. Essa serenidade que me afaga a pele e acalenta minha alma, me dá um ar pueril que só tem valor para mim, que o vivo agora - e já antes vivi. O sossego da noite me espera, e eu chego, - chego porque tanto o quis que o conquistei -, eu o esperei, não ele a mim. A grande mudez que já não me abala apenas vem embalar minha liberdade que só alcanço fora do peito, mas dentro dos olhos.  Talvez o dia nasça nublado, e é bom que seja assim: a imensidão do céu cinza e o doce e puro desejo de silêncio. Se música tocar, que seja de chuva acompanhada de timbres de piano. Se o Sol resplandecer, esperarei calmamente seu grande ocultamento no horizonte… O momento que reluz em meus olhos e se transfere para meu espírito, faz-me ansiar um lugar tão alto e longe que não pudessem me distinguir: se sou alma vivente ou se faço parte do ocaso.

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Uma janela fechada

  • R: A verdade é que te vendo agora, vejo que muita coisa do antigo J ainda está aí...
  • J: Como era o antigo J, afinal?
  • R: Era tranquilo. Tinha sempre uma palavra de ânimo. Dava gosto de ver a força que tinha no olhar. Olhar de uma pessoa que sabia o porquê de viver. Que amava a vida e tinha esperança num futuro melhor. E isso era contagiante.
  • J: Hm... bonito.
  • R: Você de agora também é contagiante. Sua alegria, suas besteiras. Gosto muito. Você continua tranquilo. Mas essas coisas, o que antes a gente via todos os dias, agora a gente vê e não vê. Some e aparece em você. Às vezes é como um sorriso falso.
  • J: Antes eu era um idealista. Hoje sou mais realista... embora sonhe e divague e esvoace com as asas partidas. Tenho altos e baixos como toda gente. Às vezes parece que carrego o peso do mundo, e às vezes parece que não me importo com o mundo. Sou assim, relativo ao que sinto. A verdade é que perdi o interesse por muitas, muitas coisas. Não consigo controlar minhas indiferenças. Aprendi a amar o silêncio. Construí minha solitude; não que isso seja misantropia, mas apenas poucas pessoas me encantam. Gosto de enxergar a ‘verdade’ no que vejo sem engrandecê-la ou diminuí-la, ao invés de idealizá-la numa esperança boba, talvez forçada. E, por favor, cuidado com as palavras: não me escondo atrás de sorrisos falsos, e é por isso que você me indaga tanto. Porque transpareço, não sem mistério. Engana-se o que pensa que um sorriso pode apenas demonstrar alegria.
  • R: No fundo... você sempre foi assim.
  • J: Sim, sempre – mas agora é mais evidente. Só quem realmente sabe olhar, vê. Já cantei a vida pra muita gente, mesmo não acreditando tanto nela.
  • R: Você com esse jeito imprevisível... Cativa. Mas o bonito e o diferente no J, era que ele, mesmo vendo a ‘verdade’ nas pessoas, acreditava que podiam mudar.
  • Você já mudou muitas pessoas, e continua mudando. E o bom de antes era ver sempre. Bastava um olhar pra tudo mudar...
  • J: Isso que você está dizendo é muito bonito, mas o tempo que passou deve ter distorcido muito sua visão, porque não lembro nada de ter sido tão assim. O problema é que muitas coisas não aceitam imperativo, a esperança é uma delas.
  • R: Mas eu sou uma das pessoas que pode te falar que isso era mesmo você.
  • J: Por quê?
  • R: Você sempre estava ao meu lado na dor.
  • J: Isso não prova nada... Você me via assim porque você me amava. Só isso. Quem ama, idealiza. Quem ama, vê a pessoa maior do que é.
  • R: Eu te via dessa forma, não porque te amava. Sabe por que digo isso? Porque meu sentimento mudou, mas minha visão não.
  • J: Você abraçou uma memória. Não existe gente assim – “Bastava um olhar pra tudo mudar?” – onde já se viu?
  • R: Tá... Você se lembra do Abel? Do Ademir? Não foram uma ou duas vezes que eles me falaram sobre você. De como você era, das conversas que vocês tinham. O Abel tinha você como um irmão. E ele falava que você o ajudou muito. Das vezes que ele pensava em fazer coisas erradas, ele se lembrava do que você tinha dito. Dos conselhos, das palavras de apoio. Pra você ver que não era somente eu que te via assim. Repito: Você já mudou muita gente, e continua mudando. Com um olhar sim; e com palavras, mais ainda. Você é que não sabe.
  • J: [...]
  • R: [...]
  • J: Não suspeitava mesmo dessas coisas...
  • R: Eu amava muito aquele J. Amava demais.
  • J: ...Não sabia que alguém me ouvia... Grande Abel... O que sorria como só ele sabia fazer... Espero que sua morte tenha sido um alívio.
  • R: Eu acho que foi sim. O que pra gente é uma fatalidade, pra ele foi um descanso.
  • J: Espero que a minha também...
  • R: Quê?
  • J: Não... nada.
  • R: É... agora chega de falar do passado.
  • J: Sim... agora é melhor fechar essa janela e parar de olhar para esse horizonte que passou.
  • R: [...]
  • J: Não chora...
  • R: Saudade... só isso.
  • J: Fecha essa janela, R. É hora de construir uma nova história. Pintar com mais cores e dar mais brilho as estrelas. E parar de abraçar memórias.
  • R: Você vai me ajudar a escolher as cores pra pintar?
  • J: Eu não escolho cores... Vou pintando com as que encontro pelo caminho.
  • -
  • [...]
  • -
  • (Grande Abel... o que sorria como só ele sabia fazer...)
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Se eu deitar aqui… Se eu apenas deitar aqui, você deitaria comigo e esqueceria o mundo?

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Pensas que me é fácil te ver passar sem a mim me sorrir nem olhar
Pensas que são plumas as duras palavras suas que recaem sobre mim sem pesar
Pensas que o teu infinito é maior que o meu e que juntos no breu não podemos sonhar

Pensas que a noite fria me aquece e que a dor que fizeste me faz querer te esquecer
Pensas que não chamo teu nome em silêncio e que não beijo o vento que não podes ver
Pensas que meus olhos não ardem e não logo te invadem sem que possas perceber

Pensas que não posso fingir com lágrimas nos olhos que também sei sorrir
Pensas que a voz do porvir faz com que o tempo passe a existir
Pensas que o longo silêncio e o sopro do vento não podem ferir

Pensas todas essas coisas e provas que não sabes nem metade de mim

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Por pincéis sem tinta.

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Quero enxergar algo no quadro que não me deixam pintar. Havia fogo no ramo de folhas. Sem flores, apenas folhas, não queimava. Alguns minutos de silêncio entre pinceladas pobres, disformes, inexperientes - pensei: Sempre no meio de uma tentativa resta à dúvida, a perda de foco, o medo de ficar sem objetivos por não ver, ao fundo, o que se quer.

Quem nunca quis morrer dormindo ou morrer de amor?

Sempre pensei que amar, mas não querer viver o amor, fosse uma maneira muito sutil de sentir prazer através da dor. Porque você sabe que dói e faz doer.

Em plena apostasia de sentimentos, entre pessoas póstumas andando pelas ruas, uma oportunidade de amor deveria ser valorizada. Mas amar não é tudo para todos. Nunca foi. Talvez existam espíritos tão livres que não nasceram para viver dentro de corações. Quem nunca morreu e continuou caminhando?

 Anda, vem, vamos juntos compartilhar a visão do mundo. Lá de cima, daquela nuvem, vou te mostrar as estrelas… como brilham. Você vai se deslumbrar com a visão da vida. Não vou deixar você cair. Anda, vem, depois de veres o que tenho para mostrar, pinta teu quadro com cores eternas e esquece a tua dor.